Esquecimento

Saímos da sala e vamos para o quarto fazer algo, e quando chegamos no quarto esquecemos completamente porque estamos lá. Vamos no mercado comprar pão e detergente, mas voltamos com pão, bolachas, queijo e uma coca. E nada do detergente. Estamos assistindo a algo na TV e alguém pergunta o que estamos vendo e não fazemos ideia. As vezes até saímos para a rua e lá no meio do caminho pensamos: “pra onde tô indo?”.

Algo parecido já aconteceu ou acontece com você?

O piloto

Temos um piloto automático no cérebro. Ele aprende a fazer as coisas que repetimos muitas vezes, e começa a fazer essas coisas com uma facilidade enorme. Esse piloto é excelente para tarefas como amarrar os sapatos, dirigir, escrever, desenhas, dançar, jogar video game, tocar um instrumento, etc. Ele se torna tão bom que podemos simplesmente deixar a ação fluir e realizamos a atividade praticamente com perfeição. É o tal do hábito.

Uma ferramenta fantástica, sem dúvida! Sem esse piloto nossa vida seria impossível.

O problema

Acontece que com o tempo acabamos usando essa ferramenta para mais coisas. Usamos o piloto para nos guiar para casa sem pensar no assunto. Deixamos esse piloto cuidar da sequência de ação que fazemos ao acorda: levantas, ir ao banheiro, usar o banheiro, tomar banho, trocar de roupa, tomar um café, ver um pouco de TV.

Começamos a usar esse piloto que resolve vários problemas da nossa vida também cuidar de todos os nossos pensamentos. Sejam eles sobre uma festa, o filme que assistimos, problemas no trabalho, uma doença, uma lembrança da infância, um conta que está para vencer, o resultado do jogo, a educação do filho, o clima, o preço do dolar… Nossa mente lembra o passado, vai para o futuro, criar passados alternativos, cria outra versão do futuro, tudo em uma questão de segundos.

Ao invés de nós mesmo lidarmos com as questões da vida, vamos pouco a pouco deixando tudo na mão do piloto automático. Vamos sobrecarregado esse piloto até ele - e nós - travarmos. Paramos de prestar atenção no céu, no barulho da chuva, nos aromas, no sabor de uma comida simples, nas cores das coisas ao nosso redor, no canto dos pássaros, no rostos de quem passa e até mesmo de quem está conversando conosco…

Esse piloto tenta resolver os problemas “chamando” todas as informações relacionadas a esse problema em busca de “uma solução”. Creio que você já deve ter tido um problema qualquer, pequeno até, como uma conta que esqueceu de pagar. Aí se lembrou de outra que está para vencer. Lembrou que tem uma pessoa te devendo. Que essa pessoa já deu mancada com você no passado. Lembra de como ficou ficou chateado. A mesma chateação que você sentiu anos atrás quando outra pessoa te decepcionou. Aí lembra de várias pessoas que te decepcionaram. Acha que não pode confiar em ninguém e se sente sozinho e deprimido. O piloto tenta fazer você se sentir melhor com uma refeição farta, deliciosa e pouco saudável, ou talvez com uma bebida alcoolica, ou descontando a frustração no transito, ou em jogos.

Não percebemos que temos dor de cabeça todos os dias pois tomamos analgésico de forma automática. Não ligamos para a sensação de estar estufado e com azia, pois tomamos outro remédio. Não ligamos para o sono, pois podemos tomar um energético ou um café para despertar…

É como no filme “Click”, fazemos milhares de coisas, não prestamos a mínima atenção e de repente nos perguntamos o que aconteceu com nossa vida, por que tudo desandou.

O que fazer?

O correto é usar o piloto automático no que ele é bom e usarmos nossa atenção e consciência para as outras questões.

Falando assim parece fácil, mas a verdade é que estamos tão dependentes do piloto automático que usar nossa consciência e atenção são tarefas muito difícies. Não conseguimos focar em nada por mais de poucos minutos, as vezes segundos. Então o primeiro passo é começar a focar no aqui e agora, mesmo que seja por poucos segundos. Para isso é utilizada a atenção plena, cujo primeiro exercício você pode ver no seguinte vídeo:

Imagem de uma árvore no campo

Nas primeiras vez que você tentar fazer este exercício é provável que você fique irritado em ter que ficar parado. Pode ser que não consiga ir até o final. Pode ser que os poucos minutos demorem décadas. É possível que você fique viajando na maionese durante todo o exercício. Pelo menos essas coisas aconteceram comigo. Uma dica é não se preocupar com a perfeição, aceite com alegria as falhas. O que realmente importante é tentar. Com o tempo você vai ficar com nisso.

A recomendação é realizar este exercício duas vezes por dia durante uma semana. Eu precisei de 3 semana para conseguir prestar atenção e seguir o exercício da melhor maneira possível. Até hoje, depois de 7 meses praticando atenção plena, ainda viajo na maionese e me perco no exercício, mas consigo voltar a ele raídamente e sem estresse, pois sei que minha mente funciona assim.

Esse exercício - e os próximo - são como musculação: no começo é ruim pra caramba e dói, mas com o tempo começamos a ver os resultados, começam a gostar de fazer e sentir falta deles quando por algum motivo não praticamos.

Deixe nos comentários como foi sua primeira tentativa, quais os problemas, ou se conseguiu fazer de primeira. Conte as mudanças ao longo do tempo.